terça-feira, 28 de maio de 2013

Sem medo de arriscar

Muita tinta tem rolado à conta da Associação Arrisca. O assunto tem sido alvo das mais despropositadas observações e – considero – carece de uma análise a frio. A associação Arrisca tem funcionado ao longo dos últimos anos na Rua dos Capas, em instalações manifestamente insuficientes para os seus cerca de 300 utentes. Destes, apenas uma minoria provoca desacatos cuja expressão máxima passa por “falar alto e fazer barulho”, confessou a Dra. Suzete Frias no programa Estação de Serviço. A esmagadora maioria está num processo de recuperação de uma “doença do sistema nervoso central”, de acordo com a mesma especialista.

Munidos do preconceito, os comerciantes do centro histórico de Ponta Delgada prontificaram-se a fazer barulho e a pressionar o atual presidente camarário José Manuel Bolieiro a contestar a decisão da mudança da Rua dos Capas para a Rua do Aljube. Esta mudança é de apenas uns escassos metros. Assim se viram dois aspetos fundamentais no comportamento de Bolieiro: 1) cede a pressões de grupos organizados e 2) defende a máxima “longe da vista, longe do coração”, uma vez que dos Capas para o Aljube a diferença é só esta: maior visibilidade. Além disso, o vice-presidente durante três anos e agora presidente parece não se preocupar nem apontar soluções para as situações deploráveis do Largo 2 de Março, do Campo de S. Francisco ou da Calheta, locais prediletos dos toxicodependentes que não recorrem aos serviços da Arrisca.

O candidato à Câmara de Ponta Delgada, José Contente, mediou – e bem – as negociações para uma nova localização da Arrisca: no terreno anexo aos Bombeiros de Ponta Delgada. Esta solução apresenta múltiplas vantagens: permanece o atendimento na cidade de Ponta Delgada (de onde originam a maior parte dos utentes), é prestado o serviço em espaço digno e contíguo aos bombeiros (que poderão prestar auxílio em caso de emergência), é um espaço recatado que protege a identidade dos utentes, existe a possibilidade de reabilitação com uma eventual experiência profissional e integração do corpo de bombeiros, é contributo financeiro para os bombeiros através da renda do espaço. A proximidade à Escola Secundária das Laranjeiras e ao Parque Século XXI é um não-problema, já que a entrada se faria pelo lado de S. Gonçalo e existem no local gradeamentos que não permitem esse acesso.

De lamentar foi o episódio da afixação de faixas “metadona aqui não” na Escola Secundária das Laranjeiras. Aqui, também, por vários motivos. É por demais sabido que naquela escola (e noutras) circulam drogas sem controlo; a metadona é uma terapia não um estupefaciente – a metadona é uma terapêutica para o que começa muitas vezes com um “charrinho” nas escolas. Uma infelicidade da qual nenhum de nós está livre.
É hoje público que esse movimento nas Laranjeiras foi incitado pela Juventude Social Democrata dos Açores, já que o presidente da AE da mesma escola veio denunciar a situação em comunicado.

José Contente é deputado à ALRA por S. Miguel e é também candidato à Câmara Municipal de Ponta Delgada. Identificou uma solução para a Arrisca e para o concelho e não hesitou em mediá-la (ainda que a isso não estivesse vinculado). Pena seja que quem comanda os destinos de Ponta Delgada apenas pretenda deitar abaixo a solução de José Contente, em vez de pensar em soluções para os munícipes do “Concelho Feliz”.

in Correio dos Açores, 29 Maio 2013:

in Açores9:



Tiago Matias
Tradutor

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Resumo da Sessão de Esclarecimento sobre a Proposta de Restruturação do Sistema Regional de Saúde*


- Está neste momento em aberto um documento de reformulação do Sistema Regional de Saúde (SRS). O Governo Regional dos Açores tem várias hipóteses em aberto, estando a auscultar os parceiros e as populações;

- O SRS funciona numa lógica de há 30 anos atrás. Houve avanços tecnológicos que ditam uma reformulação;

- Há que fazer distinções, centralizar o que pode ser centralizado e vice-versa;

- Ao Secretário Regional da Saúde foi pedida sustentabilidade. Luís Cabral distingue dois níveis de sustentabilidade: 1) organização e gestão administrativa e 2) organização da prestação dos cuidados de saúde;
- Deve instituir-se apoio domiciliário nas situações de verdadeira emergência, nos cuidados continuados e nas situações de saúde mental. Não deve ser o paciente a deslocar-se a uma unidade de saúde. Os cuidados domiciliários são para manter e, se possível, aumentar;

- Os centros de saúde deixam de ter SAP e passam a funcionar entre as 8h00 e as 20h00. Isso permitirá aos centros de saúde concentrarem-se em situações de intervenção primária, deixando a intervenção de urgência para os hospitais. Os hospitais, com os seus meios especializados, passam a responder de forma mais proficiente às situações de urgência. O HDES passa a absorver todas as situações de urgência da ilha de S. Miguel;

- Para problemas de saúde não urgentes, existe uma linha de apoio telefónico que funcionará 24h. Do outro lado estará um enfermeiro que fará uma triagem, encaminhando o paciente para terapêuticas que possa seguir em casa, indicando a farmácia de serviço mais próxima e inclusivamente fazendo uma marcação para consulta no dia seguinte no Centro de Saúde local;

- Propõe-se que os médicos de família aumentem o seu rácio de pacientes atendidos de uma média de 1.500 para 1.900, com a devida compensação remuneratória de horário extraordinário;

- Serão criados subsídios de fixação de médicos que decidam exercer na Região por um período mínimo de 5 anos.

- Poderá haver necessidade de transferir médicos entre centros de saúde. Não estão previstos despedimentos;

- Está proposta a integração de mais uma unidade SIV (viatura de Suporte Imediato de Vida) em S. Miguel. Esta viatura ficará em princípio na Ribeira Grande, por ser o segundo concelho mais povoado da ilha e por fazer fronteira com todos os concelhos de S. Miguel. Não haverá aumento da frota de ambulâncias atualmente existente na Ribeira Grande. As unidades SIV servem apenas de apoio à frota de ambulâncias. A SIV é uma unidade de resposta rápida, com equipamentos desfibrilhadores e outros. Os médicos recebem de imediato na central da Estação Açor a informação acerca das verdadeiras urgências, por telemetria – podem assim preparar-se  e chamar os especialistas indicados para que tudo esteja pronto no Hospital para acolher o paciente que irá chegar (ex: enfartes cardíacos, AVCs, traumatismos de acidentes rodoviários…). As SIV funcionam entre as 8h00 e as 22h00. Em S. Miguel são feitas 8 a 10 ativações por dia, Na Terceira 3 a 4 ativações por dia e no Faial 1 ativação por dia. Nem todas são situações verdadeiramente urgentes. Prioridades das SIV: cardiologia, AVC, traumatismos graves, paragens respiratórias.;

- Não deve o SRS fazer concorrência aos privados, especialmente em áreas onde estes prestam melhores serviços. Mas com a rede que o SRS dispõe, deve esgotar-se primeiramente a capacidade de resposta do SRS e depois encaminhar para os privados;

- Não há condições para manter serviço de obstetrícia no Pico. A OMS estipula que um serviço de maternidade, para ser proficiente, deve apoiar no mínimo 1500 partos anuais. No Pico nascem à volta de 65 crianças por ano. É financeiramente insustentável ter no Pico todos os profissionais necessários para os partos mais exigentes (obstetra, anestesista, etc…). Nascem por ano: Ponta Delgada (1.570 crianças), Angra do Heroísmo (600 crianças), Horta (300 crianças);

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* Principais declarações prestadas pelo Secretário Regional da Saúde, Dr. Luís Cabral, na opinião de Tiago Matias. Iniciativa promovida pelo Partido Socialista dos Açores.